Radis de outubro aborda suicídio como questão de saúde pública

[Rio de Janeiro] – Júlia tinha 13 ou 14 anos quando encontrou a gatinha Fudência na estrada. Ela estava viajando em uma bicicleta a motor e, pelo retrovisor, viu algo se mexendo no meio do mato. Parou, curiosa. Por entre as folhas, saiu aquele ser indefeso, pequeno, andando meio de lado. Foi assim que o bichinho entrou em sua vida e permaneceu por cerca de 13 anos. A gatinha morreu pouco depois que Júlia se matou, no dia 24 de fevereiro de 2018, aos 27 anos. Um mês antes, ela havia adotado a Sem Nome em um petshop, uma gata branca que agora é a companhia de sua mãe, Lígia Mastrangelo, no apartamento em que as duas moravam na zona oeste do Rio de Janeiro.

Foram quatros gatos que passaram na vida de Júlia: Black, Fudência, Pin e Sem Nome. Com essa última foi amor à primeira vista, como conta a mãe: ao adotá-la, ela brincou que era o “primeiro amor de 2018”. Lígia conversou sobre Júlia com a gente por mais de uma hora, em seu apartamento, e em diversos momentos repetiu a frase: “Você teria gostado de conhecer a Júlia. Ela era uma pessoa incrível”. Seu relato revela que a filha que ela amava e ainda ama é muito mais do que a forma como decidiu morrer. “O suicídio não resume a pessoa que ela foi. Eu vejo muito mais do que isso”, conta. Por isso, desde o início, Lígia quis falar sobre o assunto, conversar com as amigas de Júlia que também sentiam sua morte, escrever em sua página no Facebook, “desaguar” a sua história. “Tem horas que não tem o que fazer a não ser botar um pouco pra fora. E se você não está num ambiente acolhedor, você não consegue fazer isso”, aponta.

Não existem verdades absolutas, existem apenas a experiência e a percepção de cada um: é assim que Lígia descreve o seu modo de encarar tudo o que passou. Quando se depara com campanhas de prevenção ao suicídio que afirmam que 90% dessas mortes poderiam ser prevenidas, ela questiona que esse dado pode gerar um sentimento de culpa nas pessoas próximas a quem se matou: por que, no meu caso, não consegui evitar? Por isso ela acredita que cada história é particular e, em algumas delas, mesmo com todas as formas de cuidado, ainda assim não é possível evitar a morte. “Eu sabia que ela tinha depressão. Ela se tratava desde os 15 anos de idade. Dos 15 aos 27, ela tentou o suicídio três vezes. A terceira tentativa ela fez aqui dentro de casa”, narra. A mãe costuma usar a expressão “morrência” para descrever esse processo de dor e sofrimento mental pelo qual a filha passou. “O ato, o momento em que é tirado a vida, é só uma continuação de toda uma morte que a pessoa vai tendo durante anos”, afirma.

Lígia é considerada uma sobrevivente ao suicídio, expressão que se refere tanto a quem sobreviveu a uma tentativa quanto a familiares, amigos ou pessoas próximas de quem se matou. As ações de saúde, cuidado e apoio voltadas para essas pessoas estão no campo chamado de “pósvenção”. “Passar por isso não é fácil, nem o que ela passou, nem o que eu estou passando. E sei que, assim como eu e ela, milhares de pessoas estão passando por isso nesse mesmo instante”, reflete.

Entre 2007 e 2016, o Brasil registrou 106.374 mortes por suicídio, de acordo com os dados mais recentes divulgados pelo Ministério da Saúde (20/9) – em 2016, a taxa brasileira de suicídio chegou a 5,8 por 100 mil habitantes e representou uma alta em relação ao ano anterior (5,7), tendência observada desde 2011. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio provoca a morte de uma pessoa a cada 40 segundos no mundo, o que exige que seja encarado como um grave problema de saúde pública. Mesmo que o assunto seja complexo e nem todas as mortes possam ser prevenidas, ações de prevenção e de cuidado com aqueles que ficam têm um papel estratégico para evitar novos casos.

Porém, ainda é preciso vencer o tabu com o qual o assunto geralmente é tratado. De acordo com a OMS, o estigma em relação ao tema do suicídio impede a procura de ajuda, que pode evitar mortes. Em seu caso particular, Lígia entendeu, desde o início, que falar sobre o assunto iria ajudá-la a “sobreviver”. “Parece realmente que as pessoas têm medo de falar, como se fosse contagioso, como se fosse ‘atrair’”, desabafa. Segundo ela, fingir que nada aconteceu é deixar a filha “morrer de novo”. “Eu não tenho vergonha do que ela fez e nem vergonha de falar sobre isso. Ela tinha tratamento, amor, religião, atividade. Ela trabalhava, saía, surfava. Ela era linda, inteligente, competente. E eu não consigo imaginar qual foi a dor que ela sentiu naquele momento para ela tomar aquela decisão. Deve ter sido alguma coisa absurda, desesperadora”, considera.

Uma semana antes de sua morte, a mãe foi acionada por uma amiga da filha, que contou que ela estava “muito mal” andando pela praia. “A gente estava vindo de uma semana difícil, em que ela tinha finalmente pedido ajuda, tinha pedido para ser internada”, relembra. Depois desse episódio, um turbilhão de acontecimentos: procura de psiquiatra, busca por uma clínica, desistência, nova procura. Lígia conta que a filha alternava momentos em que dizia que estava bem e outros em que se fechava. Até que no sábado em que haviam combinado de passarem o dia juntas, Júlia avisou à mãe que ficaria em casa – e horas depois, ocorreu o suicídio. “Se alguém disser ‘Eu vou morrer, eu quero me matar’, não pense que ele está falando para chamar a atenção. Minha filha falou, pediu, eu fiz tudo que podia”, afirma Lígia. Para ela não existe culpado, nem raiva – apenas amor. “Eu como mãe de uma suicida só posso respeitar e me esforçar muito para tentar entender. Com muita dor. Com muita saudade, mas sempre tentando entender e aceitar”, escreveu em um depoimento no Facebook.

“Eu não tenho raiva do que ela fez. Eu nunca desmaiei, não fiquei sem sentido ou fora de mim. Eu preferi tratar tudo isso de forma consciente”, conta. Mas ela considera que cada experiência é única e é preciso respeitar as formas e o tempo de luto de cada um. “Estava me preparando para Júlia sair de casa, porque ela me dizia que o apartamento já estava ficando pequeno para a prancha de surfe e o equipamento de trabalho”, recorda. “Eu não tive uma pendência com a Júlia. Nunca pensei: ‘Se eu tivesse dito mais vezes que a amava…’. Ela sabia exatamente que eu a amava. O que a gente tem que aprender agora é como viver sem ela.”

Mesmo que sempre se queira entender os porquês, o suicídio é um fenômeno complexo para o qual não existem respostas simples. Deve ser encarado como questão de saúde pública, como defende Carlos Felipe d’Oliveira, médico psicoterapeuta que trabalha há mais de 20 anos com o assunto. Carlos ressalta que é preciso romper com uma visão simplista sobre o fenômeno e lembra que ele é determinado por múltiplas causas. “O suicídio depende da interação de um conjunto de fatores de risco e de proteção. Nós estamos lidando com um fenômeno complexo que tem ações previsíveis e ao acaso também”, explica. Segundo ele, é uma questão que fala do sofrimento humano.

Quando ocorre, ele não afeta apenas a pessoa que se matou, mas todos aqueles ao seu redor. Para Mariana Bteshe, psicóloga e professora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), a morte pelo suicídio é um ato violento que causa comoção e toca as pessoas. “O suicídio traz muitas interrogações sobre a vida e a existência humana. Faz você questionar seus valores, o modo como você lida com as pessoas, se você presta atenção quando alguém está triste e some da sua vida”, analisa.

Ela também enfatiza que o fenômeno envolve inúmeras causas e fatores, mas que podem ocorrer acontecimentos do dia a dia que atuam como um gatilho. “Existem alguns fatores que podem ser precipitantes, como um término, uma separação, a perda de um parente próximo, crise financeira, desemprego. Situações de perdas da vida que seriam mais ou menos comuns, mas que podem atuar como um gatilho para um ato que é de desesperança total”, reflete.

Embora cada caso tenha suas particularidades, Mariana aponta que o suicídio envolve geralmente um processo de dor ou sofrimento mental. “A pessoa que começa a pensar em tirar sua própria vida está vivendo um momento de total desesperança. Ela se vê sem saída. A frase que a gente escuta muito na clínica é essa: ‘Estou sem saída’”, comenta.

O fenômeno já foi encarado sob diferentes olhares — da filosofia, sociologia, religião, psicologia, entre outras visões. Já foi estudado por pensadores como o alemão Karl Marx ou pelo francês Émile Durkheim, ainda no século 19. “Durkheim, por exemplo, discutiu os aspectos que estão ligados à anomia social, o fato de se estar dentro de um grupo social em que você não tem voz, não é reconhecido, em que você não tem direitos. Esse é um fator de risco importante para as tentativas de suicídio”, esclarece.

Para entender a questão e atuar com ações de prevenção, a saúde coletiva desenvolveu modelos sobre o chamado comportamento suicida. De acordo com Mariana, são observadas características ou sinais que vão desde a ideação, que envolve ideias de morte ou a vontade de morrer, passam pelo planejamento de fato e chegam até as tentativas ou o ato concretizado. “Esse modelo de compreensão é adotado pelos profissionais de saúde que atuam no cuidado, para tentar avaliar minimamente qual é o risco e a gravidade de cada caso”, pontua. Além da ideação suicida, os riscos são avaliados a partir de uma combinação de fatores, como tentativas e acesso aos meios. “Se a pessoa já tentou algumas vezes, tem uma profissão ou ocupação na qual dispõe de acesso aos meios, como policiais que têm acesso à arma, médicos e enfermeiros com medicamentos, isso vai aumentando a gravidade do caso. Não significa que todos os casos apresentam um comportamento suicida, mas a gente consegue identificar esse crescente”, completa.

A tentativa prévia é o fator de risco mais importante para o suicídio na população em geral, de acordo com a OMS. Entre 2011 e 2016, foram registrados 48.204 casos de tentativas de suicídio no Brasil, 69% em mulheres e 31% em homens, segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde de 2017 – em ambos os sexos, a faixa etária que concentra o maior número de tentativas vai de 10 a 39 anos. Esses casos abrangem apenas aqueles que foram captados pelo Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan).

Porém, a taxa de suicídio é cerca de quatro vezes maior na população masculina do que na feminina: entre os homens brasileiros, é de 8,7 por 100 mil habitantes; e em mulheres, de 2,4 por 100 mil, em 2015, segundo o Ministério da Saúde. Já em relação ao comportamento suicida, o estudo epidemiológico mais conhecido no Brasil sobre o tema foi realizado em Campinas (SP), coordenado pelo professor Neury Botega, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Essa pesquisa revelou que 17,1% das pessoas já pensaram em se matar em algum momento, 4,8% chegaram a elaborar um plano para isso e 2,8% efetivamente tentaram se suicidar.

Continue a leitura no site da revista Radis.

Confira também a edição número 193 na íntegra.

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